A literatura e o jornalismo perderam um grande homem, Baptista-Bastos

terça, 09 maio 2017 18:22 Escrito por 
A literatura e o jornalismo perderam um grande homem, Baptista-Bastos D.R.

Morreu hoje aos 83 anos o jornalista e escritor português Baptista-Bastos.

Baptista Bastos, de 83 anos, estava internado há cerca de uma semana no Hospital de Santa Maria.

Considerado um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos, Baptista-Bastos (Armando Baptista-Bastos) nasceu em Lisboa, no Bairro da Ajuda (que tem centralizado em vários romances e numerosas crónicas), em 27 de Fevereiro de 1934. Frequentou a escola de Artes Decorativas António Arroyo e o Liceu Francês.


Começou o seu percurso profissional em "O Século", matutino em representação do qual viajou por numerosos países. N’"O Século Ilustrado", de que foi subchefe de Redacção com, apenas, 19 anos, assinou uma coluna de crítica cinematográfica, "Comentário de Cinema", que se tornou famosa pelo registo extremamente polémico.

Em Abril de 1960 é despedido de "O Século" por motivos políticos (esteve envolvido na Revolta da Sé, 1959, no decorrer da candidatura Delgado, de que foi activista), e, devido às circunstâncias, trabalhou na RTP numa sem-clandestinidade e com um nome suposto: Manuel Trindade. Com esse pseudónimo redigiu noticiários, e assinou textos de documentários para Fernando Lopes ["Cidade das Sete Colinas", "Os Namorados de Lisboa", "Este Século em que Vivemos"], e para Baptista Rosa, "O Forcado", com imagem de Augusto Cabrita, e música de Miles Davies, "Scketchs of Spain".

Seis meses decorridos foi despedido da RTP, porque o então secretário nacional da Informação, César Moreira Baptista, mais tarde ministro do Interior no governo de Marcelo Caetano, deu instruções nesse sentido, dizendo, num ofício: "esse senhor é um contumaz adversário do regime".


Em épocas distintas Baptista-Bastos pertenceu, também, aos quadros redactoriais de "República", "Europeu", "O Diário"; e aos das revistas "Cartaz", "Almanaque", "Seara Nova", "Gazeta Musical e de Todas as Artes", "Época" e "Sábado". Foi, igualmente, redactor em Lisboa da Agence France Press.


Porém, é no vespertino "Diário Popular", onde trabalhou durante vinte e três anos (1965-1988), e no qual desempenhou importantes funções, que marca, "com um estilo inconfundível", disse Adelino Gomes o jornalismo da época. Naquele diário publicou "algumas das mais originais e fascinantes reportagens, entrevistas e crónicas da Imprensa portuguesa da segunda metade do século", referiu Afonso Praça. "Um dos maiores jornalistas portugueses de sempre", afirmou David Lopes Ramos do Público. Tanto no jornalismo como na literatura situa-se na primeira linha da narrativa portuguesa contemporânea.
Colaborou, ou ainda colabora, como cronista "um dos grandes escritores da cidade de Lisboa", referiu, Eduardo Prado Coelho, in "O Cálculo das Sombras" em "Jornal de Notícias", “A Bola”, "Tempo Livre"; e, também, no "JL – Jornal de Letras artes e Ideias", no "Expresso", no "Jornal do Fundão" e no "Correio do Minho". Foi fundador do semanário "O Ponto", no qual, entre outros grandes textos e reportagens, realizou uma série de oitenta entrevistas que assinalaram uma renovação naquele género jornalístico e marcaram a época. Escreveu e leu crónicas para Antena 1 e Rádio Comercial. Foi o primeiro dos comentadores de "Crónicas de Escárnio e Maldizer", famosa e popular rubrica da TSF – Rádio Jornal. Colunista do "Público" e do "Diário Económico".


Foi docente na Universidade Independente, onde leccionou a disciplina de Língua e Cultura Portuguesas.
Realizou uma série de entrevistas para as revistas "TV Mais" e "TV Filmes". Presença frequente em debates nas televisões apresentou, no Canal SIC, de Novembro de 1996 e Janeiro de 1998, e a convite de Emídio Rangel, um programa, "Conversas Secretas", com algum êxito. De Janeiro a Agosto de 2001 apresentou na SIC Notícias, um programa de entrevistas, "Cara-a-Cara".


Percorreu, profissionalmente, todo o Portugal Continental e Insular, e viajou e escreveu sobre Espanha, Canárias, França, Itália, Bélgica, Irlanda, Brasil, Uruguai, Argentina, Suíça, Luxemburgo, Grécia, Áustria, Turquia, República Democrática Alemã, República Federal da Alemanha, Checoslováquia, URSS, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Nigéria, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc.


Um dos seus livros de textos jornalísticos, "As Palavras dos Outros", é considerado "um clássico" e "uma referência obrigatória na profissão", disse Adelino Gomes e Fernando Dacosta respectivamente, sendo recomendado como "leitura indispensável" no I Curso de Jornalismo organizado pelo sindicato dos jornalistas.


Todos os livros de Baptista-Bastos (romances, crónicas, entrevistas, reportagens, ensaio cinematográfico) estão antologiados em volumes de ensino de Português, e seleccionados por temas em obras representativas das modernas correntes literárias. Está traduzido em checo, búlgaro, russo, alemão, castelhano e francês. Os romances "Cão Velho entre Flores" e "Viagem de um Pai e de um Filho pelas ruas da Amargura" são geralmente considerados obras-primas. O primeiro foi indicado como leitura obrigatória no Curso de Literatura Portuguesa Contemporânea da Sorbonne, sendo professor o Dr. Duarte Faria, e catedrático o Prof. Dr. Paul Teyssier. Este romance foi, também, lido na Rádio Comercial, em 1979, numa produção de Fernando Correia.

Os livros de Baptista-Bastos têm servido de estudos e para teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras.


Em Abril de 1999, a Direcção do "Público" convidou-o a realizar uma série de dezasseis entrevistas, subordinadas ao tema: "Onde é que você Estava no 25 de Abril?", que desencadeou algumas polémicas e constituiu um assinalável trabalho jornalístico. Doze dessas entrevistas (com Álvaro Guerra, Carlos Brito, D. Januário Torgal Ferreira, Emídio Rangel, Fernando de Velasco, Hermínio da Palma Inácio, João Coito, Joshua Ruah, general Kaúlza de Arriaga, Manuel de Mello, padre Mário de Oliveira e Pedro Feytor Pinto) foram inseridas num disco (que teve uma tiragem de 55 mil exemplares), juntamente com a edição de 25 de Abril de 1999 daquele jornal.
Pela mesma ocasião, a Direcção do "Diário de Notícias" também convidou Baptista-Bastos a escrever o enquadramento do capítulo "O Efémero", da edição especial "O MILÉNIO", iniciativa daquele matutino.

Fonte: Jornal de Negócios

Modificado em terça, 09 maio 2017 18:55