José Afonso, o Zeca, deixou-nos há 30 anos

quarta, 22 fevereiro 2017 21:49 Escrito por 
José Afonso, o Zeca, deixou-nos há 30 anos D.R.

José Afonso partiu em 1987, exactamente a 23 de Fevereiro. Deixou a sua voz, a sua mensagem e a força da sua palavra.

José Afonso de seu nome completo, José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 02 de Agosto de 1929, na Freguesia de Glória, em Aveiro, filho de um juiz, do Fundão, e de uma professora primária, de Ponte de Lima.

Em Aveiro ficou até aos três anos com o João em casa de uns tios. Aos três anos foi levado para Angola, onde o pai havia sido colocado como delegado do Procurador da República.

A relação física com a natureza causou-lhe uma profunda ligação ao continente africano, facto que se reflectirá em toda a sua vida.
As trovoadas, as florestas e os grandes rios atravessados em jangadas disfarçavam perante os seus olhos a realidade colonial.

Em 1937 regressa a Aveiro, mas parte no mesmo ano para Moçambique, onde se reencontra com os pais e os irmãos em Lourenço Marques.

No ano seguinte, volta para Portugal, indo viver em Belmonte, com um tio presidente da Câmara. Completa a instrução primária nesta localidade, e convive com o mais profundo ambiente do Salazarismo, de que seu tio era fervoroso admirador, sendo obrigado a envergar a farda da Mocidade Portuguesa.

Em 1939 os pais foram viver para Timor, onde forma prisioneiros dos ocupantes japoneses durante três anos, entre 1942 e 1945. Durante esse período, Zeca Afonso não teve notícias dos pais.

Frequentou o Liceu Nacional D. João III e a Faculdade de Letras de Coimbra, e integrou o Orfeão Académico de Coimbra e a Tuna Académica da Universidade de Coimbra; já nesta altura, se revelou um intérprete especialmente dotado na canção de Coimbra, tendo assimilado o ambiente de mudança que, naquela altura, se estava a começar a manifestar naquela cidade

Em 1948 completa o Curso Geral dos Liceus, após dois chumbos. Conhece então Maria Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a casar em segredo, por oposição da família.
Continua na vida associativa, fazendo viagens com o Orfeão Académico de Coimbra e com a Tuna Académica da Universidade de Coimbra,ao mesmo tempo que integra a equipa de futebol da Académica.
Em 1949 inscreve-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Volta a Angola e Moçambique, integrado numa comitiva do Orfeon Académico de Coimbra.

Faleceu em 23 de Fevereiro de 1987[2], no Hospital de Setúbal, às três horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

Neste dia 23 de Fevereiro serão muitas as manifestações de homenagem, ao homem autor da canção que abriu a portas da Liberdade em Portugal.

Um concerto na Academia de Santo Amaro, em Lisboa, outro no Conservatório Gulbenkian, em Braga, ambos com o título "Insisto não ser tristeza", um verso de José Afonso, assinalam na quinta-feira os 30 anos da morte do compositor.
Estes dois concertos são dois dos 30 espectáculos, num total de mais de seis dezenas de iniciativas, que a Associação José Afonso (AJA), com os seus 14 núcleos em Portugal mais o de Bruxelas, promove ao longo do ano para recordar o autor de "Grândola, vila morena", "Maio, maduro maio" e "Coro da Primavera".

Na Academia de Santo Amaro, em Lisboa, actuará o Canto Afonsino, na quinta-feira, com músicos como Carlos Alberto Moniz, Francisco Naia e Rui Freire, enquanto no Conservatório Gulbenkian, em Braga, se apresenta o grupo Canto d'Aqui, com vários convidados, entre os quais Artur Caldeira, Ana Ribeiro e Uxia.

Em Aveiro, será exibido o documentário "Não me obriguem a vir para a rua gritar", de João Pedro Moreira, no Auditório da Associação Cultural Mercado Negro, numa sessão que vai contar com "um momento aberto à participação de todos" os que quiserem partilhar a memória de José Afonso.

Na quinta-feira, também a Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, numa iniciativa própria, independente das acções da AJA, inaugura uma mostra documental "em homenagem a José Afonso", que inclui poemas e canções, fotografias e discos em vinil, aliando documentos em suporte original e em suporte digital, e que vai ficar patente na Torre do Tombo, em Lisboa, até 21 de Março.

Quanto aos concertos a realizar ao longo do ano, pela AJA, vão contar com Francisco Fanhais, Manuel Freire, Afonso Dias, Rui Pato, Pedro Fragoso, entre outros participantes, estando ainda prevista a actuação do músico espanhol Patxi Andion, num concerto em Évora, em Junho.

Do programa de iniciativas que, segundo o presidente da AJA, Francisco Fanhais, visam "não fazer perder a memória do Zeca no coração das pessoas", constam ainda dezoito exposições sobre a obra discográfica e a vida de José Afonso.

Vinte e duas outras iniciativas, entre as quais uma sessão intitulada "Zeca Afonso, professor", a realizar no dia 11 de Março, na Casa da Cultura, em Setúbal, com a presença anunciada do secretário de Estado da Educação, João Costa, constam do programa das comemorações.

"A ideia é celebrar os 30 anos da Associação [José Afonso] e evocarmos o legado que o Zeca nos deixou, que não está morto, mas que devemos perpetuar para as gerações que nos seguirem, porque, se não o fizermos, não cumpriremos a nossa função", sublinhou Francisco Fanhais à agência Lusa.

Lisboa, Setúbal, Braga, Faro, Santiago do Cacém, Santo André, Aveiro, Seixal, Almada, Évora, Santarém, Agualva-Cacém, Abrantes e Bruxelas são os locais onde as iniciativas se realizam, até ao final do ano.

A Associação gostava ainda de poder realizar um grande concerto em Lisboa, este ano, mas tudo dependerá dos custos, disse Francisco Fanhais à agência Lusa. O Coliseu dos Recreios, onde José Afonso deu o último concerto, em 29 de Janeiro de 1983, e onde foi cantada a "Grândola, Vila Morena", na noite de 29 de Março de 1974, é uma das salas com que o presidente da AJA gostaria de contar para a iniciativa, assim como a Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Para Francisco Fanhais, "o mais importante", porém, "é mostrar que Zeca foi um artista da música, da poesia, da voz e que pôs a sua arte ao serviço da cidadania de uma maneira desprendida e desinteressada, de forma a contribuir para uma sociedade sem muros nem ameias, e sem exploradores nem explorados".

José Afonso "complementou as convicções com uma prática muito intensa, muito ativa na defesa dos valores da liberdade, dos valores da emancipação das pessoas, na defesa do poder popular, e isso é uma dimensão perfeitamente impossível de esconder" na sua obra.

Fanhais sublinhou ainda que é "extremamente perigoso" querer limitar José Afonso a um cantor de intervenção, esquecendo a qualidade excecional da sua obra poética. "O Zeca disse sempre que a música é comprometida, quando o músico é comprometido".

José Afonso, músico, compositor, poeta, combatente pela liberdade, o criador de "Grândola, vila morena", nasceu a 02 de Agosto de 1929, em Aveiro. Morreu, aos 57 anos, em Setúbal, a 23 de Fevereiro de 1987.

A Associação José Afonso foi criada a 18 de Novembro de 1987, por amigos de José Afonso, "com o objectivo de ajudar a realizar as ideias do compositor e intérprete no campo das Artes".

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Modificado em quarta, 22 fevereiro 2017 22:02