A candidatura do Fado a “Obra Prima do Património Imaterial da Humanidade” é uma história que começou há cinco anos com Pedro Santana Lopes, mas só no mandato seguinte, de Carmona Rodrigues, “as coisas assentaram um pouco” e foi assinado um protocolo entre a autarquia, a sua empresa municipal, EGEAC, e o Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa (IEUNL) para se constituir uma comissão científica para programar a candidatura. Além de Vieira Nery esta comissão inclui Salwa Castelo-Branco (do IEUNL) e Sara Pereira do Museu do Fado.
“Há cinco anos de trabalho sólido, a que o actual presidente (António Costa) deu continuidade. A fase actual é preparar a candidatura, fundamentar o seu objecto”, afirmou Nery que sublinhou: “fazer o trabalho de casa, para mostrar que Portugal trabalhou”, e explicou que este trabalho passa pelo levantamento da memória que pode ficar “obliterada” pelo estado actual de expansão do Fado.
“A nossa preocupação não definir o que é Fado, um modelo puro, ou do que deve ser o fado, não temos nenhum intenção normativa, mas sim descritiva”, esclareceu o catedrático. A ideia é assinalar “as grandes referências da história do Fado: os grandes guitarristas, os grandes compositores, intérpretes, poetas, de maneira a que estejam vivas e os novos fadistas as conheçam e possam encontrar, depois, o seu próprio caminho”, afirmou.
Até este momento estão catalogadas “largos milhares de faixas de gravações históricas de fados”, sendo que uma parte está já disponível on-line nos sites do Museu do Fado e do IEUNL. Há também toda a parte iconográfica – fotografias, gravuras – que está a ser catalogada, também a edição musical em partituras e a de poemas, assim como as revistas e os estudos que foram feitos, disse Rui Vieira Nery.
Em Dezembro deverá sair um primeiro conjunto de edições, disse o musicólogo, enquanto um segundo conjunto de edições deverá sair em Junho próximo.
Está assim previsto, segundo Nery, a edição em fac-smile com estudos críticos de alguns trabalhos fundamentais como a “História do Fado” do Tinop, “A triste canção do Sul”, de Alberto Pimentel, “Fado canção de vencidos”, de Luís Moita, “uma espécie de manifesto contra o fado, e a resposta do fado a este ataque” por Vítor Machado que foi “Os ídolos do fado”.
Antologias de poesia de fado e séries de discos históricos estão também nos horizontes da candidatura e no Verão do próximo do ano, Julho mais provavelmente. Isto, advertiu Nery, “se o Ministério da Cultura tiver feito o seu trabalho de casa” que é a publicação da portaria que efectivará a lista de Património Imaterial, e Portugal possa assim apresentar em Paris, à UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) a sua candidatura e vê-la aprovada, assim o esperamos.
Há ainda que articular esta candidatura com o Ministério dos Negócios Estrangeiros através do qual se seguem os canais diplomáticos, sendo a Câmara de Lisboa o principal pilar porque é o proponente, explicou Vieira Nery.
Este alerta da necessidade de agilizar a parte ministerial tinha sido dado já ao Hardmusica, no Verão, por Carlos do Carmo, porta-voz da candidatura.
Mas Rui Vieira Nery acredita no sim de Paris, pois todo o trabalho tem sido feito.
“Estou confiante porque acho que fizemos o trabalho bem. Claro que temos que demonstrar também que o Fado é uma realidade próxima da comunidade, a cidade de Lisboa e no país, e que se reconhece neste género, quer preservá-lo, quer continuá-lo e quer preservar a sua memória”, assinalou.
Portugal tem de demonstrar à UNESCO, disse Nery, que “já está a investir e não está à espera nem de benesses da organização, nem de subsídios, mas que o trabalho que está a apresentar irá ter a homologação, isto é a aceitação da candidatura” que Nery vaticina como “uma das mais sérias que já apareceram”.
A questão de ser um género em risco, “coisa que Portugal não pode dominar” e concorda Nery o fado não está em risco, poderá ser um obstáculo ao “sim” da UNESCO.
Todo este trabalho liderado pelas três personalidades científicas é secundado por uma equipa de jovens investigadores do IEUNL e pelo Conselho do Fado do Museu do Fado que “são personalidades que vieram do terreno”.
Este conselho é constituído pelos fadistas Carlos do Carmo e Dom Vicente da Câmara, os músicos António Chaínho e Luísa Amaro, o construtor de guitarras, Gilberto Grácio, o poeta e divulgador fadista Daniel Gouveia, e as entidades Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (Julieta Estrela e Luís de Castro) e a Academia do Fado e da Guitarra Portuguesa (Luís Penedo).
Sintetizando, a primeira etapa é nacional e trata-se do registo no inventário do Património Imaterial pelo Ministro da Cultura; a partir daqui a Câmara pode fazer a proposta formal à UNESCO e será submetida à Comissão Nacional da UNESCO dependente dos Ministério dos Negócios Estrangeiros que aceita ou não, e depois vai a uma comissão de peritos da organização internacional e o seu parecer é submetido à respectiva assembleia–geral na primeira reunião que for convocada.
Tudo de olhos postos agora nas edições e outros projectos que se associarão à candidatura e alguns que terão a sua chancela para que Portugal conquiste pela primeira vez esta proclamação de Património Imaterial da Humanidade para um bem cultural seu.