Irmãos Dardenne podem fazer história em Cannes

Irmãos Dardenne podem fazer história em Cannes

Irmãos Dardenne podem fazer história em Cannes Valery Hache/AFP

A solidariedade contra o individualismo: "Deux jours, une nuit" (Dois dias, uma noite), nova crónica social dos irmãos Dardenne, com a francesa Marion Cotillard num papel comovente de uma operária do subúrbio de Liege, foi bem recebido no Festival de Cannes.

Exibido hoje na mostra oficial, o filme foi aplaudido e alguns críticos chegaram a mencionar a possibilidade de uma terceira Palma de Ouro para os realizadores belgas ou de um prémio de interpretação feminina.

Sandra (Marion Cotillard), estimulada pelo marido (Fabrizio Rongione), tem apenas um fim de semana para bater de porta em porta e suplicar a cada um dos seus colegas de trabalho que abram mão de um bónus de mil euros para que ela consiga manter o emprego.

Na sexta-feira, os funcionários votam a favor do bónus, mas graças ao apoio de uma colega, nova votação é programada para a segunda-feira seguinte.

A história é inspirada em "diversas situações similares" que aconteceram no fim dos anos 1990 em empresas como a Peugeot ou outras da Bélgica e Estados Unidos, explicou à AFP Luc Dardenne.

O mais novo dos irmãos fala do "cinismo contemporâneo" de uma direcção que invoca a crise como justificativa, com o discurso de "só posso contratar esta pessoa caso vocês sejam solidários".

Um cinismo ainda menos justificado porque Sandra não é uma activista, e sim uma mulher depressiva que terminou a sua baixa médica e que "não acredita mais nela e não confia nos demais".

"Vou parecer uma mendiga", afirma a protagonista ao marido para explicar por que não deseja tentar convencer os colegas. Mas aos poucos, ela transforma-se numa "mulher que deixa de ter medo", segundo Luc Dardenne.

"Felizmente para a personagem e pela primeira vez na nossa família de personagens, a heroína tem um marido que é um homem formidável e eles levam uma vida normal. Não estão ameaçados de expulsão, são apenas pessoas humildes", completou Jean-Pierre Dardenne.

A câmera dos irmãos Dardenne segue a mulher no seu périplo de porta em porta, o que vira um calvário. Em cada etapa, o espectador descobre uma nova situação, contas para pagar, a perda do emprego do marido, entre outras. "O bónus representa um ano da factura de energia elétrica", resume um colega de trabalho. Luc espera que os espectadores que assistam ao filme perguntem: "Se eu estivesse no lugar de Sandra, Mireille ou Willy, o que faria?''.

"Talvez seja um pouco ingénuo, mas talvez o filme ajude a criar um sentimento de solidariedade. É melhor que o grande individualismo que geralmente vemos".

"Foi um sonho ter conseguido trabalhar com os irmãos Dardenne", disse Marion Cotillard. A actriz afirmou ainda que não ficou assustada com "o enorme trabalho dos ensaios" imposto pelos Dardenne "para obter o que desejavam com o filme".

"Foi o que sempre sonhei na relação entre realizador e actor", disse Marion, que citou "uma experiência comovente, enriquecedora, talvez a mais bela".

Os dois irmãos, que não se imaginam a trabalhar separados, formam uma dupla aclamada em Cannes.

Eles integram o clube exclusivo dos cineastas que receberam duas vezes a Palma de Ouro: em 1999 por "Rosetta" e em 2005 por "A criança". Uma terceira Palma seria um recorde sem precedentes na história de Cannes.

"Estamos muito contentes por estar na competição. Esperamos que que as exibições tenham êxito e ajudem o filme a encontrar o seu público", disse Jean-Pierre.

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terça, 14 Nov. 2017 10:00 – domingo, 31 Dez. 2017 17:00
Campo Grande 245, Lisboa, Lisboa

terça, 14 Nov. 2017 10:00 – domingo, 17 Dez. 2017 18:00
Campo Grande 245, Lisboa, Lisboa

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