O preconceito esteve presente na Gala da Abraço no Teatro Municipal S Luiz

Pelo 23º ano consecutivo a Associação Abraço assinalou o Dia Mundial de luta contra a SIDA com uma Gala onde existiram vários e extraordinários artistas. Pena que um tenha usado o seu tempo de antena para ser preconceituoso.

Com apresentação de Filomena Cuatela e Nuno Eiró, passaram pelo palco do Teatro Municipal S. Luiz mais de meia centena de artistas, desde cantores, fadistas, declamadores, actores de teatro de revista, bailarinos e travestis.

Este ano a Abraço decidiu atribuir dois prémios, um do júri e outro do público. Os jurados Gonçalo Lobo, Presidente da ONG Abraço, a actriz Luciana Abreu e o apresentador de televisão José Carlos Malato elegeram a Miss Simpatia, o duo composto por Naomi Beaty e Alejandro Sousa. O público escolheu o jovem Simão Teles como a Melhor actuação da 23ª edição da Gala da Abraço.

Nas palavras da apresentadora, os travestis que pisaram aquele palco "são as maiores divas do país".

Após o desfile de abertura, todos vieram à frente palco. Mas como eram muitos, e embora o palco seja largo, não foi possível formar uma só fila. Resultado, os atropelos para ficar na frente aconteceram. Pois ninguém queria ficar "para trás".

A destacar a intervenção da Drag Queen do Porto, que recentemente participou no The Voice Portugal, Natasha Seminova, que cantou o tema dos Radiohead "Creep". Foi bem interpretado, mostrando que a sua saída do programa de televisão, poderá ter sido menos justa. Salientamos que não usou playback e mostrou bem a qualidade vocal que tem. A Drag Queen fez questão de dizer que "não represento o travesti, pois não uso peruca nem peito e não ponho a pila para trás", no entanto "represento o preconceito e a liberdade de expressão". Natasha explicou que é "a versão crise do transformismo, uma vez que não tenho dinheiro para perucas, nem para pôr o peito. E com este frio a minha pila fica muito pequenina, logo não dá para pôr para trás". Mais uma vez mostrou que não tem qualquer problema em explicar ou falar sobre o tema.

O jurado José Carlos Malato, que emagreceu 40 quilos, devido a um tratamento que fez , afirmou que "vivemos num país mais civilizado onde já é possível adoptar".

Simone de Oliveira cantou "Foi assim", de Augusto Madureira, com a sua garra e a sua alma, acompanhada ao piano pelo Maestro Nuno Feist. No final da sua interpretação, o S. Luiz levantou-se a aplaudir. A cantora referiu que vem desde o início porque "gosto de toda a gente, e porque toda a gente é pessoa", rematando com "vamos amar-nos só com alma e coração".

No espectáculo existiram dois momentos de fado, um pela voz de Maria da Nazaré acompanhado por guitarra e viola, e outro "Abraço", escrito por Flávio Gil, musicado por Menito Ramos e interpretado por Marina Mota, sem suporte musical. Enquanto que o primeiro foi um desastre, pois desafinou e no final não apresentou os músicos que a acompanharam, o segundo encheu a sala apenas com a sua voz.

A jurada Luciana Abreu confessou que "é a primeira vez que vejo um espectáculo travesti" e antes da interpretação de Ramona Stuart, afirmou que "todos levam no pacote", embora o tema nada tivesse a ver com tal afirmação.

O Presidente da Abraço após a brilhante actuação de Naomi Beaty e Alejandro Sousa, afirmou "pareceu-me que estávamos no 'Achas que sabes Dançar'". Foi sem dúvida uma das melhores actuações da noite.

Outro destaque vai para Suelly Cadilac, que ao interpretar "Spente le Stelle", de Emma Shapplin, soube usar a sua indumentária para durante a actuação dar mais beleza ao espectáculo. Cada gesto, cada passo, cada movimento, fizeram da sua performance uma das melhores da noite.

Infelizmente Claudia Ness, com o seu tema "I am what I am", de Shirley Bassey, teve de ser comparada a outro tranformista, Sylvie Kass. Pois este era o seu tema, aquele que era a sua imagem de marca, o seu ADN.

Fez dois anos que Sylvie Kass nos deixou e um ano que Didi Piaf partiu. Amândio de Sousa decidiu prestar-lhes uma homenagem, lendo um texto. O péssimo, foi que nesse texto afirmou que "um transexual não é nada, nem ninguém". Numa Gala onde se luta contra a discriminação e o preconceito, não deveria ser permitido que esse texto fosse lido. O declamador decidiu também pedir um apaluso de homenagem para aquele que foi a Rainha do travesti burlesco, José Manuel Rosado ou Lidia Barlof. Homenageou também a fadista que recentemente faleceu, Beatriz da Conceição e depois decidiu falar de dois travestis vivos, Guida Scarlaty e Deborah Crystal. Esta última responsável pela direcção artística do espectáculo. Terá sido bajulamento? Vamos pensar que não. Mas já agora, porque não falou do mais importante travesti português, Ruth Briden? Será que por se ter tornado transexual, foi "esquecido"?

A grande revelação da noite foi o jovem cantor Simão Teles. Apareceu vestido de mulher para interpretar de viva voz "This is my Life" de Shirley Bassey. Com uma voz potente entrou a cantar à cappella, seguindo-se a actuação com playback instrumental. A sua voz encheu o Teatro Municipal São Luiz e fez vibrar os espectadores. Para Gonçalo Lobo, Simão "transmite paixão enquanto canta".

Também de referir, mas pela negativa, a actuação do duo Patrícia Andrade e Eduardo Moreira. Foi totalmente fora de contexto, com expressões provocatórias e demasiado longa.

Do Porto veio Wanda Morelli para interpretar um clássico do travesti, "Profession Artist", de Michèle Torr. Nesta performance o travesti vai deixando de ser mulher ao longo da canção, para no final estar vestido de homem.

Quase no final do espectáculo Luciana Abreu disse que "para se ser artista, tem de se suar para pisar o palco". Sobre as interpretações da noite, afirmou que "uns nasceram no corpo errado". Salientou que "todas as gerações deveriam ver este espectáculo", confessando que "um dia trago as minhas filhas". Por sua vez, Gonçalo Lobo, referiu que esta gala serve para "lutar contra a desigualdade e contra a discriminação".

O Jornal Hardmusica elegeu os seguintes artistas:
Melhor Actuação - Simão Teles

Melhor Guarda Roupa - Nicole Vartin

Melhor Coreografia - Naomi Beaty e Alejandro Sousa

Melhor Originalidade - Linda Xenon, a interpretar Tina Turner

Galeria de Imagens

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